terça-feira, 2 de agosto de 2011

De Pushkar a Udaipur

Bizarro!

Esta é a única definição possível para a viagem entre Pushkar e Udaipur. Tão bizarro que merece um capítulo especial só para ela.

Decidimos ir de ônibus até Udaipur. Fomos a uma pequena agência de viagens para nos informarmos do preço: RS270 cada utilizando a opção “Sleeper”, espécie de cabine com cama no ônibus noturno. Pareceu-nos interessante o bastante para comprarmos lugares para as 19:00. Porém, tomaríamos inicialmente um ônibus iria para Ajmer onde alguém estaria nos esperando para nos transferir para outro ônibus, este sim para Udaipur.

Às 18:30 estávamos no local de onde o ônibus sairia. Acomodamos as mochilas em uma saleta ao lado da agência e ali esperamos. Bom, por agência entenda-se um cubículo de 3×3 metros com uma porta que dá para a rua. Às 19:00 fui perguntar se o tal ônibus chegaria no horário e o dono da agência começou a gritar coisas desconexas em uma mistura de inglês e hindu que eu mal conseguia entender, perguntando se eu possuía um ticket, saída imediata, qualquer coisa lá adiante. Outro homem em uma motocicleta aproximou-se e disse para segui-lo, pois ele mostraria o local de embarque.

Rapidamente vestimos as mochilas e em vão tentamos acompanhar aquele rapaz em sua motocicleta em meio ao rebuliço das ruas de Pushkar. Após uns seiscentos metros de desabalada carreira alcançamos o rapaz que nos mostrou o tal ônibus “prestes a sair”, o último de uma longa fila, uns trezentos metros adiante. Apertamos o passo e finalmente alcançamos o ônibus que partia, onde, após meia hora de espera, finalmente aparece um sonolento motorista para nos abrir a porta.

Esta primeira parte da viagem levaria cerca de meia hora. Uma hora depois de partir, ainda sem nenhum sinal da cidade de Ajmer, entramos em uma rua mal iluminada em uma pequena vila no meio do nada, onde o ônibus manobrou e parou. Meus instintos brasucas imediatamente acenderam uma luz vermelha e tocaram o alarme de perigo dentro da minha cabeça: roubo, assassinato e estupro eram as únicas palavras que me vinham a mente. O motorista nos avisa que ele e o seu “co-piloto” farão um “break” de cinco minutos, o “copiloto” acrescenta “casa de amigos” e eu penso “hora perfeita para uma visita social”. Após alguns minutos de tensa espera e o embarque de algumas caixas no ônibus, prosseguimos a viagem por mais uns trinta minutos, quando alcançamos uma grande cidade, esta sim Ajmer.

O ônibus estacionou em uma área de terra batida que no Brasil seria o local perfeito para um campo de futebol de várzea, mas que, aparentemente, na Índia é o local ideal para uma rodoviária. Um rapaz adentrou ao ônibus e começou a gritar algo que vagamente lembrava a palavra “Udaipur”, apontando para um lugar qualquer à frente. Neste local havia um “ricksaw de carga”, composto por uma pequena cabine onde só cabia o motorista e uma grande caçamba. O motorista nos orientou a colocar as mochilas na parte de trás e sentarmos com ele na minúscula cabine. Declinando à honraria embarcamos na caçamba e seguimos caminho para o local onde, supostamente, o ônibus para Udaipur nos aguardava.

Ruas escuras, casebres servindo de pontos comerciais, muita sujeira pelas ruas. Esse era o panorama das redondezas, que muito se parecia com o mais remoto e perigoso subúrbio carioca. É incrível como a Índia se parece com as partes mais pobres do Rio ou de Salvador. E é claro isso desperta em mim os mais primitivos instintos de sobrevivência. Novamente alarmes soavam em minha cabeça.

Trafegamos alguns quilômetros mais e o motorista parou em um destes pontos comerciais na beira de uma avenida. Perguntei se era este o local do ônibus e ele disse que não, que pararíamos para comer. Menti, dizendo já termos jantado e que gostaríamos de seguir direto para a outra rodoviária. Muito a contra-gosto ele reiniciou o trajeto. Poucos minutos depois ele para de novo e mais uma vez pergunto se havíamos chegado. Obviamente não: paramos para ele ingerir qualquer coisa contida em um pequeno copo, que, é claro, eu preferi não saber do que se tratava.

Prosseguíamos para cada vez mais longe do movimentado centro de Ajmer, para lugares onde o Escadinha não se arriscaria sozinho, causando um verdadeiro rebuliço em meus instintos de brasileiro. Finalmente alcançamos uma rua onde, incrivelmente, havia, não um, mas vários ônibus estacionados, e entre eles o nosso. Fiquei tão agradecido por estar vivo que resolvi dar ao nosso simpático motorista RS20 de gorjeta. Passados alguns minutos ele me procura dizendo haver uma taxa de RS20 pelo transporte das malas. Sem dar muita bola apenas disse-lhe que então estávamos quites. Contrariado ele foi-se.

Alguém colocou nossas malas no bagageiro do ônibus, que, é claro, não possuía qualquer tipo de tranca. Tentei ficar vigiando o bagageiro pelo maior tempo possível, mas o motorista insistia para que eu tomasse o meu lugar. Entreguei as malas a Deus e tentei localizar nosso lugar: “Sleepers” 7 e 8. “Sleeper” é simplesmente uma cama simples ou dupla, colocada exatamente onde no Brasil costuma-se encontrar o bagateiro interno do ônibus. Existem as tradicionais poltronas e sobre estas os tais “sleepers”. Tentei o meu melhor palpite para adivinhar onde seriam os “sleepers” 7 e 8, já que não existia qualquer forma de numeração.

O esforço foi intenso: tentar acomodar duas pessoas com toda bagagem de mão em um cubículo de 180x130x60 cm, através de uma pequena porta deslizante exige um certo grau de contorcionismo. Felizmente e finalmente estava tudo ajeitado e as cãibras controladas.

Ledo engano!!! Estávamos nos assentos errados e não tinha conversa: tínhamos que mudar. É interessante como em meio ao caos generalizado da Índia algumas coisas aleatórias, como números de assentos, são importantes e merecem ser respeitadas. Mas fazer o que? Mudamos para os assentos corretos.

Pronto! Assentos corretos, bagagem ajeitada, ônibus em movimento. Cansado, comecei a cochilar e meu último pensamento foi a imagem de um jovem indiano feliz da vida carregando minha mochila retirada do bagageiro segundos antes do ônibus por-se em movimento…

Não sei ao certo por quanto tempo dormi até ser acordado por frenéticas batidas à porta de nosso cubículo. Um homem, em um tom que me pareceu bastante agressivo, dizia coisas que levei alguns segundos para entender como sendo “Isto é seu? Você esqueceu aqui fora!”. Era o meu laptop!!! Na confusão da mudança de cabine, larguei o computador em algum lugar qualquer. Ah, se fosse no Brasil…

A viagem prosseguiu sem maiores incidentes. No meio da noite paramos na versão indiana dos postos “Graal”: uns seis ou sete casebres de madeira na beira da estrada com suas enormes panelas fumegantes vendendo massala chais, doces e pratos salgados. Atendendo ao chamado da natureza, desci do ônibus e tive a oportunidade de conhecer o segundo pior banheiro do planeta; sim, o segundo, porque o primeiro eu conheceria mais tarde na outra parada do ônibus. A diferença entre os dois é sutil, mas você pode notar-la pelo tempo que você leva para sufocar com as intensas emanações de amônia. Ao menos o lugar é completamente livre de germes; germe nenhum poderia viver naquelas condições. Soube que os germes remanescentes mudaram-se pouco tempo atrás por falta de salubridade do local.

Necessidades satisfeitas, assentos retomados, queimaduras pulmonares tratadas e algumas horas e quilômetros mais tarde alcançamos nosso destino final. Eram quatro e meia da manhã e meus pensamentos enquanto saía da cabine e descia do ônibus eram todos a respeito de como eu faria para me virar na Índia sem a minha mochila. Vã preocupação: lá estava nossa bagagem, sã e salva, atirada no chão poeirento de Udaipur, sendo pisoteada, atropelada por uma motocicleta, imunda, coberta de poeira, mal tratada, mas ainda lá.

Esse é, pois, o paradigma indiano: confusão generalizada, onde dificilmente poderia acreditar-se que algo venha a funcionar. Porém, subitamente do caos faz-se ordem, as promessas se realizam e as coisas simplesmente acontecem, pois, aparentemente, alguém ou alguma coisa ainda está no controle da situação.

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