terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pushkar

Pushkar é uma das muitas cidades santas da Índia. Segundo a lenda, Brahma, o Deus, não a cerveja, deixou cair sobre a Terra uma flor de lótus. Neste lugar formou-se um lago e ao redor dele Pushkar, com seus muitos e importantes templos. O lago, rodeado por edificações, abriga cinqüenta e dois “ghats”, uma espécie de portal que dá acesso à escadarias que levam às margens do lago, onde centenas de pessoas executam seus rituais de lavagem e banhos de purificação.

A cidade é barulhenta e agitada, com milhares de pessoas se espremendo em estreitas ruas compartilhadas com vacas, motocicletas e carrinhos de bugigangas. Felizmente os automóveis foram banidos do movimentado centro. Como os atrativos da cidade são basicamente os seus diversos templos, se você não é um bramanista, provavelmente não achará esta cidade especialmente interessante.

Conhecemos um casal inglês na viagem de ônibus entre Jaipur e Pushkar e resolvemos ir para o mesmo hotel, ou melhor, “guest house” ou ainda, mais especificamente, “The Milkman Guest House”, já que este local possuía boa indicação no guia “Lonely Planet”. Se me permitem a citação em inglês: “A terrifically welcoming family house with cheeky frescoes in cosy but clean rooms. Plants galore sprout from every nook and cranny and there’s even a lush lawn on the roof top.”, ou traduzindo “Uma casa de família intensamente acolhedora, com afrescos travessos em quartos aconchegantes, porém limpos. As plantas brotam em abundância de cada canto e recanto, havendo ainda um gramado exuberante na cobertura.”
Esta e somente esta é a informação que o guia traz! Bom, pela descrição parece ser um lugar tão fantástico quanto a fábrica de chocolates do Willy Wonka. Eles só se esqueceram de colocar uma informação que talvez seja importante para alguém que ali deseje se hospedar: os quartos não tem banheiro privativo. Esta é, pois, a minha primeira e maior crítica ao guia “Lonely Planet”: muita poesia e frescura e muito pouca informação.

Como a cidade não oferece muitas outras opções, nosso primeiro dia foi visitar o lago, passear pela cidade e degustar os famosos doces indianos.
No segundo dia optamos pela longa caminhada de uma hora, morro acima, até o “Savitri Temple”. A caminhada é árdua, o morro possui escadarias íngremes e desiguais, mas ver homens, mulheres, crianças, velhinhos e velhinhas enfrentando a difícil subida lhe dá ânimo para prosseguir. No alto somente o templo de Savitri e uma magnífica vista do lago e da cidade de Pushkar. Ali tivemos a oportunidade de conhecer dois verdadeiros “Holy men” ou homens sagrados. Eles, assim como os falsos “holy men” vestem trajes sumários, por vezes andando nus, usam pinturas características na testa e muitas vezes se pintam com cinzas humanas.
Então como diferenciar um “Holy man” verdadeiro de um falso? De fato é bem simples: os verdadeiros não querem o seu dinheiro. Assim como todos e tudo mais na Índia, os falsos “holy men” somente estão interessados em separar turistas de suas rúpias, vendendo bênçãos e pedindo dinheiro para deixarem-se fotografar.

O caminho de volta prosseguia sem maiores incidentes até que, exageros à parte, eu me deparei com a mais terrível experiência da minha vida. Lá estava eu, caminhando lépido e faceiro, quando um homem me abordou tocando sua “saranji”, uma espécie de violino, mas que possuía um som era bastante desagradável. Os padrões musicais dos instrumentos na Índia é muito diferente dos nossos, mas eu tenho plena certeza que aquele instrumento em particular soava completamente desafinado para qualquer padrão deste planeta. Incomodado com a “dissonantíssima” melodia resolvi apertar o passo. Creio que isso foi tomado como um gesto de aprovação, porque o infeliz começou a cantar. Bem, cantar é apenas uma figura de linguagem, porque acredito ser isso que ele tentava e nem remotamente conseguia executar.
O som emitido era simplesmente medonho, algo que povoará os meus piores pesadelos pelo resto da minha vida, difícil de ser traduzido em palavras, mas que com algum esforço eu definiria como sendo a somatória do som emitido por um gato sendo torturado, com a Yoko Ono fazendo “back vocal”. A essa altura eu já estava quase correndo, na esperança que um de nós dois tropeçasse e caísse de um penhasco, quando finalmente e felizmente o rapaz desistiu de me seguir, indo torturar outro vivente. Eu não estou bem certo, mas eu acho que a idéia é emitir aquele som horroroso até que alguém pague a ele para parar.

Satisfeitos com nossa estadia em Pushkar, onde, para mim, dois dias foram mais que suficientes, resolvemos ir de ônibus até nosso próximo destino: Udaipur.
Acontece, porém que o ônibus somente partiria à noite e nossa diária vencia ao meio-dia. Assim sendo fizemos o “check out”, pagando a bagatela de Rs250 por noite, mais uma significativa conta de restaurante, mas pedimos permissão para permanecermos nas instalações da pousada por mais algumas horas, almoçar e ali matarmos algum tempo é incrível, mas logo após pagarmos a conta, os rostos até então sorridentes e acolhedores dos donos da casa e empregados, subitamente se transformaram em caras feias e mal-educadas, com algumas pessoas nos tratando realmente mal.
Aborrecidos com os acontecimentos deixamos a pousada antes do horário previsto e fomos “matar o tempo” em um restaurante. Pois é, meu amigo ou amiga, acostume-se com a idéia: viajando pela Índia você será visto, na maioria das vezes, apenas como uma carteira, onde o único indisfarçável interesse é pelo seu dinheiro.
Mas não há de ser nada… Próxima parada Udaipur.

Para ver algumas fotos desta aventura clique aqui.

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