Definitivamente não é o lugar ideal para uma lua-de-mel, mas se você tem estômago e disposição para encarar o diferente este pode ser um bom local para sua próxima viagem.
Minha primeira visão de Delhi foi estonteante: o novo aeroporto, construído sob encomenda para os Commonwealth Games é bonito, luxuoso e decorado com extremo bom gosto. Entretanto, ao primeiro contato com os “nativos” você compreende a necessidade de aprender uma lição e aprende-la rápido: saiba dizer não, não uma, não duas, mas meio milhão de vezes, e isso apenas para uma pessoa. Indianos, particularmente em Delhi são extremamente insistentes em oferecer-lhe serviços não solicitados e tal como as moscas australianas, não se deixam persuadir por simples e educados gestos. Pedi uma informação a um funcionário do aeroporto e subitamente me vi pagando Rs 200 (rupias) para um carregador transportar minha bagagem até o estacionamento.
Ok, Rs 200 (rupias) não é muito dinheiro, algo em torno de 10 reais, mas para os padrões indianos é bastante dinheiro. Só para se ter uma idéia um hotel mediano custa algo em torno de Rs 900 (rupias) para duas pessoas por noite.
Por falar em hotel, fizemos reserva no hotel “Cottage Yes Please”. É, o nome é esse mesmo… A julgar pelo contato inicial imaginei que a estadia fosse resultar em uma pequena dor de cabeça: após enviar uma dúzia de e-mails solicitando uma reserva e um “pick-up” no aeroporto recebo uma simples resposta dizendo que eu tinha uma reserva. Sem números, sem referências, nada. Para minha grata surpresa, assim como tudo mais relacionado ao hotel, 2:15 da manhã lá estava uma pessoa nos esperando no aeroporto para realizar o traslado ao hotel. Tal serviço nos custou Rs 600 (rupias). Cottage Yes Please é simples, porém limpo, organizado e eficiente estabelecimento, o que para os padrões indianos já é um achado, localizado no bairro de Paragange, no centro velho da cidade, pelo qual pagaríamos Rs 900 por noite.
Uma vez alojados o segundo desafio é comer, pois nesta hora, três cuidados são necessários:
- Água, só mineral;
- Saladas, frutos e outros alimentos crus, normalmente lavados, nem pensar. O risco para nós, estrangeiros, contrairmos uma doença digestiva é enorme.
- E nunca, nunca mesmo, olhe para o interior de uma cozinha…
A comida é maravilhosa, com milhares de aromas e sabores exóticos. Thalis, punirs, curris, chais, doces e salgados maravilhosos saem dos mais grotescos catres que se pode imaginar, lugares que só poderiam ser definidos como “Satan Kitchens”. E não espere encontrar aquele maravilhoso restaurante para poder almoçar ou você fatalmente morrerá de fome.
Como o plano era sair de Delhi em direção a Jaipur, “the Pink City”, por trem, o próximo passo foi comprar as passagens. Esta simples atividade se revelou o mais puro e dantesco pesadelo. Não tenho suficiente discernimento para compreender o porque isso acontece, mas as pessoas em Delhi mentem para você deliberadamente o tempo todo. Portanto nunca peça uma informação a um passante na rua e nunca, nunca mesmo confie naquele estranho que solicito, educado e bem humorado faz algumas simpáticas perguntas sobre sua nacionalidade e para onde você vai, para em seguida lhe “ensinar o caminho correto”. E ai se incluem os motoristas de rickshaw, pequenos táxis triciclos.
Após um rápido breakfeast em um daqueles catres, tomamos um rickshaw motorizado até a estação de trem onde, no “touristic bureau”, são vendidos os únicos bilhetes de trem nos quais se pode confiar. O motorista nos levou a um lugar que não se parecia muito com uma estação de trem, mas o rapaz parecia ser uma boa e confiável pessoa. Após 10 minutos tentando adivinhar onde seria o tal birô, fomos abordados por outro “solicito passante” que nos indicou um lugar totalmente diferente. Levou-nos até o rickshaw que nos aguardava, deu algumas instruções ao motorista e este nos levou até o suposto guichê. Munidos do guia Lonely Planet nós sabíamos que o o tal birô estaria no segundo andar de um edifício e este suposto local tinha, realmente, dois andares e o “guichê” era no segundo andar. Porém o local era tão insalubre que nem o mais horrendo funcionário público trabalharia ali. Perguntamos a duas garotas que saíam do local e elas nos informaram que pagaram Rs 2.000 cada pelas mesmas passagens de trem que desejávamos.
Duvidando da veracidade do local fomos interpelados por um homem de turbante que ,aos berros, começou a argumentar se eu duvidava da sua palavra e que se ele fosse branco eu confiaria nele. Sem entrar em conflito com o insano mentiroso, pagamos o outro mentiroso que dirigia o rickshaw e nos dirigimos, desta vez a pé, ao verdadeiro local, graças a informações colhida junto a policiais e turistas, aparentemente as únicas pessoas em que se pode confiar em Delhi. O tal birô fica dentro da estação de trens, um prédio enorme com um enorme trem de concreto em sua fachada, no segundo andar, como descrito no guia. Após mais três ou quatro “solícitos passantes” tentarem nos desviar do local correto, finalmente compramos os tickets para Jaipur no trem das 06:05 da manhã, em um vagão com ar-condicionado, pelos quais pagamos Rs 415 cada. Mais tarde descobrimos que o golpe mais comum nas ruas de Delhi é induzir turistas a irem a locais que vendem tickets verdadeiros, pelos quais se pagará duas, três ou até quatro vezes mais que o preço oficial.
Após um rápido jantar no Kitchen Café, um agradável, pelos padrões de Delhi, restaurante “roof top” próximo ao hotel e uma merecida noite de sono, acordamos bem cedo e caminhamos até a estação de trem. E aqui cabe uma outra nota: ruas que no Brasil eu não transitaria de dia com um escolta armada, em Delhi pode-se passear assobiando em plena madrugada.
Fui preparado para o pior: os trens costumam atrasar bastante, o que foi prontamente confirmado, assim que entrei na estação, pela voz no alto-falante que se desculpava pelo atraso de duas horas em um dos trens. Rezando para não ser o nosso, tentei, em vão, descobrir no quadro de horários a plataforma de partida. Perguntei a um policial e este me indicou a plataforma 2, o que foi confirmado por outros turistas no local. Para minha agradável surpresa o trem apareceu exatamente no horário estabelecido.
Embarcados, acomodados, prontos para a jornada de 4 horas e meia, próxima parada: Jaipur.
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